A Compasso dos Ventos na Imprensa
Por Cristina Padiglione

Perdão pelo trocadilho no título, mas a série que Ricardo Linhares adaptou do livro homônimo de Edney Silvestre mantém atentos, quase estatelados, os olhos de um telespectador que vai descobrindo as camadas de uma história norteada por segredos inconfessáveis, segundo reza o fantasminha de todos nós, e a hipocrisia da alta casta, tudo arraigado num racismo que o brasileiro insiste em dizer que não existe.

Como é um título ofertado ainda só pelo streaming, com seus dez episódios disponíveis, a compulsão pela maratona é inevitável, tamanha é a habilidade da narrativa em conduzir a plateia pelo prazeroso processo de desvendar cada pétala dessa cebola que ali se apresenta, capítulo por capítulo.

A série só está disponível no NOW, por um custo que supera o valor de assinatura básica de Netflix ou GloboPlay. Tem status de produto premium, e faz jus a tanto, mas bem que poderia já estar ao alcance dos assinantes do serviço de streaming da Globo, tornando o título mais acessível a um público maior. Ao disponibilizar a série apenas no NOW, com custo a la carte, a Globo fez do produto uma cobaia para as novas experiências de negócios do ramo, com suas várias opções de janela.

Diretor artístico da obra, Carlos Manga Jr. empresta um tom sépia ao colorido vigente, o que vem muito a calhar com um aspecto bastante presente no roteiro: o racismo. Quer dizer: você verá um programa em cores, mas as paletas usadas em cena nos remetem a uma referência de preto-e-branco, o que empresta certo fascínio à narrativa.

Estamos falando de uma cidade do interior fluminense nos idos de 1961. O período mencionado remexe ligeiramente em alguns estragos deixados pela ditadura Vargas, lá atrás, em um contexto onde o conservadorismo e a preservação das oligarquias falam mais alto. Ser negro ou mulato, naquele cenário, fazia toda a diferença, e vale como um choque a quem, ainda hoje, acredita que o racismo no Brasil é algo quase neutro, para não dizer inexistente. Não é. Nunca foi. Mas já foi pior.

Um plano que poderia parecer simples para encobrir um crime é completamente desmontado por motivação de dois garotos antenados, que se dispõem a entender o que aconteceu com a vítima, quase como uma brincadeira de detetive. Eduardo (Xande Valois) e Paulo (João Gabriel D’Aleluia) encontram o corpo de uma mulher morta à beira do rio onde vão brincar, e resolvem comunicar o fato à polícia, que, a princípio, quase tenta incriminar os dois pelo ocorrido.

Antonio Fagundes entra em cena a seguir, quando os garotos já tentam vasculhar a casa da vítima, e mostra-se alguém interessado na história da morta.

Convém reparar na presença de Renato Borghi, respeitadíssimo no teatro e pouco usado pela TV, como o viúvo em questão. Ter Borghi em cena é um prêmio. Débora Falabella faz par com o marido de verdade, Murilo Benício, em um casamento certamente menos feliz na ficção. Gabriel Braga Nunes é outra luz, distante dos cacoetes que o assemelham em todas as novelas. Mas são reservadas a Mariana Ximenez as melhores frases, coroando um tom rodriguiano que toma praticamente todo o roteiro, com expressões muito comuns na obra de Nelson – como a pequena, espeto, é batata – que contribuem para levar o espectador a viajar pela época em que a história se passa.

Ainda do elenco, atenção a Jonas Bloch, o pároco da cidade, igualmente premiado com ótimas falas, Bernardo Bibancos, nome promissor entre os jovens talentos, que alcança a justa introspecção demandada pela narrativa, e Paulo Rocha, quase irreconhecível na concepção física e moral do personagem.

Resumo da ópera: vale a pena pagar para ver. Se eu Fechar os Olhos Agora é daquelas histórias que habitam os anseios e as reflexões do telespectador, mesmo passado algum tempo após ter sido vista.

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